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Cartas de Arquivo - 2ª edição

Escrito por ASCOM | Publicado: Sexta, 23 de Fevereiro de 2018, 16h18 | Última atualização em Segunda, 26 de Fevereiro de 2018, 11h37

Nesta segunda edição do “Cartas de Arquivo”, uma parceria do Arquivo Nacional com a Definitiva Cia de Teatro e a Via 78, mostramos a carta que Maria Lacerda Dias Moura, uma importante representante do movimento feminista, enviou para Fabio Luz, contendo considerações sobre o anarquismo, durante o período em que ele esteve preso. O projeto, realizado uma vez por mês, promove a leitura dramatizada de uma carta, visando difundir parte do acervo textual do Arquivo Nacional e faz parte das comemorações dos 180 anos da instituição.

Assista à leitura dramatizada dessa carta no YouTube do Arquivo Nacional.

Conheça o contexto histórico da carta: 

As primeiras décadas do século XX foram marcadas por intensos movimentos sociais urbanos decorrentes, sobretudo, do recente processo de industrialização pelo qual atravessavam as principais cidades brasileiras durante a Primeira República. Nesse contexto, os trabalhadores imigrantes que desembarcavam no país, seja para as plantações de café no oeste paulista ou como mão de obra para a nascente indústria do centro-sul, tiveram papel medular na difusão dos ideais revolucionários que varriam a Europa no período. Anarquistas, socialistas, anarco-sindicalistas, comunistas, atravessaram o oceano em busca de liberdade e terras férteis para semear seus projetos de transformação da sociedade.

O cenário sociocultural, permeado por utopias reformistas, de superação das condições de opressão de um regime republicano que, apesar de novo, consolidava no poder a mesma oligarquia conservadora e autoritária do Brasil escravocrata, contagiava intelectuais e pensadores. Entre esses, Maria Lacerda Dias Moura e Fábio Lopes dos Santos Luz que fizeram de sua escrita, trincheira política para as lutas que agitavam o país.

A professora mineira Maria Lacerda foi uma das pioneiras do anarco feminismo no Brasil. Produziu artigos, conferências, livros e escreveu nos principais periódicos da imprensa anarquista, onde tratava de questões como: educação libertária, emancipação da mulher, anticlericalismo, amor livre, além do combate às formas totalitárias de governo que emergiram no velho continente e ganhavam adeptos no Brasil.

Em 1919, fundou, junto com Bertha Lutz, a Liga para a Emancipação Intelectual da Mulher, embrião da Federação Brasileira pelo Progresso Feminino. No entanto, diferentes concepções acerca do significado de emancipação feminina, levaram Maria Lacerda a não apenas romper com as sufragistas, mas a adotar uma postura crítica frente aquele “feminismo elitista” – em suas palavras – que não propunha uma ruptura com o sistema, ao contrário, se integrava a ele a partir da participação política defendida. Suas pautas eram muito mais abrangentes, advogava pela ruptura dos padrões estabelecidos pela família burguesa e a maternidade compulsória; o domínio sobre o corpo; o divórcio e o amor livre.

Na década de 1920, Maria Lacerda passou a ter um maior envolvimento com ideologias de esquerda, em especial o anarquismo. Dialogou com pensadores libertários como o professor e filólogo José Oticica e o médico higienista e inspetor escolar Fábio Luz, com quem trocou cartas durante o período em que este esteve preso por sua colaboração no jornal anarquista “Voz do povo”. Ao mudar-se para São Paulo, nesse mesmo período, viu de perto a vida do proletariado e suas condições de trabalho. Em seus textos produziu críticas ferrenhas ao Estado, ao sistema representativo, ao voto, à família e à religião; a educação libertária seria o único meio de se alcançar a emancipação humana e consequentemente transformar o status quo.

Por seu posicionamento transgressor e investidas contra os valores fundamentais da sociedade burguesa, foi criticada e atacada, tornando-se, segundo sua biógrafa Míriam Leite, “indesejada e indigna de ser lembrada”. Faleceu em 1945, aos 58 anos, no Rio de Janeiro, onde trabalhou na rádio Mayrink Veiga.

A carta de Maria Lacerda pertence ao fundo Fábio Luz (PN), de natureza privada, doado ao AN pelo titular na década de 1930. Postais, cartões de visita, poesias, fotografias, impressos, recortes de jornais, correspondências, documentos sobre a ideologia e atuação anarquista no Brasil, Estados Unidos, Argentina, Uruguai, entre outros, além de críticas ao governo republicano estão entre os documentos que compõe o fundo – recortes que ajudam a revelar aspectos dos movimentos políticos contestatórios que atravessaram as primeiras décadas do século XX.

Veja a transcrição da carta:

Fundo Fabio Luz – PN.0.0.151

Carta de Maria Lacerda Dias Moura para Fabio Luz com considerações sobre o anarquismo durante o período em que este esteve preso.

 

Dr. Fabio Luz,
Sua carta de 14 foi para mim precioso estímulo.

Infinita gratidão por tão delicadas expressões e votos pela minha ascensão para a conquista libertária.

Não me assustei com a palavra Anarquia.

O meu coração já sentiu o que seja esse grande ideal.

Falta-me de fato qualquer coisa para eu me despegar por completo de alguns tantos prejuízos talvez – como a crença em reformas burguesas segundo a sua expressão.

É que ainda não compreendi bem essa reviravolta necessária no mecanismo social.

Prevejo-a, sinto-lhe a necessidade, entretanto eu não saberia como se deveriam arquitetar novas sociedades assentadas em bases de equidade se destes escombros só nos restam desilusões, miséria, injustiça, ceticismo, falta de caráter.

Apego-me às vezes às leis – sem ter fé, convicta da sua inutilidade. Mas, nesse período de transformação a que se deve apegar a gente como tábua de salvação?

Inúteis, improfícuas as reformas burguesas,– mas, se o mundo está nas mãos dos burgueses e o povo não está preparado para a revolução social e essa revolução não é talvez para os nossos dias ou pelo menos não dará o resultado desejado em os nossos dias?...

Com que devemos contar por ora?

Apelo então para a educação popular. Ao mesmo tempo sinto-lhe a impotência uma vez que a facção governista não cuida disso e o povo ou a iniciativa particular nada pode diante de tão imenso problema.

Enfim, meu venerando camarada, fico no caos, não saio desse círculo vicioso.

Se tiver tempo queira ter a bondade de me dizer alguma coisa a respeito. Quem sabe se a sua lógica me convenceria?

Acresce o seguinte: aqueles que estão fora desse ideal, por ignorância o não compreendem e essa linguagem os assusta, não é pela persuasão que nós os convenceremos?

Acho o golpe por demais profundo para toda essa gente incapaz de encarar a questão. Em torno de mim vejo ou ouço as maiores barbaridades contra o ideal anárquico, barbaridades pronunciadas por pessoas generosas, idealistas.

É que o tempo não soou para elas: é a ignorância, e não se ensina a criança à força o que o seu cérebro não pode conceber. É preciso jeito e tempo na obra educativa. O povo é como a criança.

Peço-lhe que me diga porque é que não tenho razão.

Eu anseio pela Verdade e aproveito todas as oportunidades que se me deparam para aprender com os mais experientes, com os mais dignos da nossa admiração e respeito.

Desejo imenso que me conte entre o número dos seus grandes admiradores, dos seus melhores amigos.

Faço votos pela felicidade dos seus filhos queridos.

Saudações fraternas.

Maria Lacerda de Moura.

18-11-1920 – Barbacena.

 

Imagem da carta no Flickr do Arquivo Nacional.

 

      

   

 

Assista também à 1ª edição do Cartas de Arquivo

 

ASCOM-Assessoria de Comunicação Social

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http://www.arquivonacional.gov.br/consulta-ao-acervo/sian-sistema-de-informacoes.html

 

 

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